Natália de Oliveira Correia, nasceu em Fajã de Baixo na ilha de São Miguel, a 13 de setembro de 1923 e morreu a 16 de março de 1993.
Escritora, Deputada à Assembleia Constituinte.

Mátria dos homens que levam no perfil
atravessada uma mulher de flores ao vento
como um olho dando para os intemporais
flancos que o amor vai iluminando
homens com quedas de água de mulheres por dentro

In Mátria

Natália de Oliveira Correia, nascida em Fajã de Baixo na ilha de São Miguel, a 13 de setembro de 1923, foi activista social açoriana, autora de extensa e variada obra publicada, com predominância para a poesia. Directora de editoras, de jornais diários e semanários. A própria recusaria ser classificada como poetisa por entender que a poesia era assexuada, mas esta ideia não é unânime e é mesmo contraditada por Maria Teresa Horta, “A Natália disse-me uma vez que nos chamavam poetas, e não poetisas, porque a figura do poeta com qualidade poética, estava dominantemente «adjudicada» aos homens, e as mulheres, para serem consideradas nessa categoria, tinham de ser tão «bons» quanto eles. Nós somos poetisas, repetia bem alto, tão boas ou melhores que eles. Nunca mais esqueci este aviso”[1].

Quando tinha apenas onze anos o pai, Manuel de Medeiros Correia emigra para o Brasil, fixando-se Natália com a mãe e a irmã em Lisboa, cidade onde faz estudos liceais no Liceu D. Filipa de Lencastre. Com sua mãe, Maria José de Oliveira Correia, teve uma estreitíssima relação e com ela aprendeu a liberdade de pensar, a dignidade do amor e o sentido da responsabilidade cívica. O universo da maternidade, configurado na pessoa da mãe, foi a matriz primordial na personalidade de Natália[2]. Talvez essa ligação tenha sido determinante para a sua veemente luta pela afirmação das singularidades femininas. “Uma mulher é uma cascata de trevos” escreveu. Não simboliza o trevo, a sorte mas também a abundância, a prosperidade e a fecundidade?

A obra de Natália Correia estende-se por géneros variados, desde a poesia ao romance, teatro e ensaio, uma obra que está traduzida em várias línguas. É autora da letra do Hino da Região Autónoma dos Açores.

Ficou conhecida pela sua personalidade livre de convenções sociais, vigorosa e polémica. Irreverente. Os seus cronistas descrevem-na como uma poetisa de excepção de rara beleza e inteligência.

Bateu-se pela derrota da ditadura, foi condenada a três anos de prisão, embora com pena suspensa e viu vários livros seus apreendidos pela censura.

Dotada de invulgar talento literário e grande coragem combativa, tomou parte activa nos movimentos de oposição ao Estado Novo, tendo participado no MUD (Movimento de Unidade Democrática, 1945), no apoio às candidaturas para a Presidência da República do general Norton de Matos (1949) e de Humberto Delgado (1958) e na CEUD (Comissão Eleitoral de Unidade Democrática, 1969).

A sua casa, nas décadas de 50 e 60, funcionava como um dos maiores salões particulares onde se reuniam as grandes figuras da cultura portuguesa. Mais precisamente, nos anos 50 a sua moradia, um quinto andar por cima da pastelaria Smart em Lisboa, foi um dos locais conhecidos pela resistência que oferecia ao regime de Salazar. As reuniões tendiam sempre a criticar e combater o fascismo. É, portanto, nesse contexto que Natália Correia vê alguns dos seus livros apreendidos pela PIDE, por ser reconhecida anti-salazarista e também pelo próprio teor dos referidos livros. Foi condenada a três anos de prisão, com pena suspensa, pela publicação da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, considerada ofensiva dos costumes, (1966) e processada pela responsabilidade editorial das Novas Cartas Portuguesas de Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta.

Foi responsável pela coordenação da Editora Arcádia, uma das grandes editoras portuguesas do tempo.

Fundou em 1971, com Isabel Meireles o bar Botequim, na Graça, onde durante as décadas de 1970 e 1980 se reuniu grande parte da intelectualidade portuguesa e muitas figuras públicas. Desde 1972 que O Botequim, viria a ser um dos centros de conspiração em prol da liberdade.  O Botequim da liberdade foi segundo Fernando Dacosta “a última grande tertúlia de Lisboa que marcou culturalmente, politicamente várias décadas portuguesas e onde se fizeram, desfizeram revoluções, governos, obras de arte, movimentos cívicos. Por ele passaram presidentes da República, governantes, embaixadores, militares, juízes, revolucionários, heróis, escritores, poetas, artistas, cientistas, assassinos, loucos, amantes em madrugadas de vertigem, de desmesura”[3].

Os seus amigos reconhecem-na e vêem-na como “a irmã que nunca tive” (David Mourão-Ferreira), “a mais linda mulher de Lisboa” (José-Augusto França),  “esta hierofântide do século XX” (Luiz Pacheco), “era muito mais linda que a mais bela estátua feminina do Miguel Ângelo” (Mário Cesariny), a “beleza sem costura” (Ary dos Santos). Diziam e dizem que foi uma mulher de personalidade vincada, tão dominadora quanto encantadora, provocatória e irreverente, afectiva e apaixonada, foi sempre uma lutadora combativa.

Maria Teresa Horta[4] disse dela:

Era uma força da natureza.
Formada no desassombro.
Na desmesura.

A Revolução de Abril encontrou-a já poetisa consagrada e reconhecida. Tornou-se mais conhecida na televisão, com o programa Mátria, acerca das mais importantes figuras de Portugal, mas no feminino, onde advogou uma forma especial de feminismo identificador da mulher como arquétipo da liberdade erótica e passional e fonte matricial da humanidade: “Se a Pátria se derivara da Terra, que é mãe que nos cria não havia de se chamar Mátria?”[5]; mais tarde, à noção de Pátria e de Mátria acrescenta a de Fratria, como símbolo da fraternidade, igualdade e equidade.

A sua intervenção política pública, no pós 25 de Abril, levou-a ao Parlamento. Foi eleita deputada pelo PPD, o partido de Sá Carneiro, personalidade que ela admirava, nas eleições intercalares de 2 de dezembro de 1979, e depois, reeleita em 5 de dezembro para o mandato de 1980 a 1983. Descontente com o PPD/PSD voltou como independente à Assembleia da República, eleita nas listas do PRD, onde esteve de 1987 a 1991.

Juntamente com José Saramago, Armindo Magalhães, Manuel da Fonseca, Urbano Tavares Rodrigues e outros foi, em 1992, fundadora da Frente Nacional para a Defesa da Cultura (FNDC), movimento criado em repúdio pela atitude prepotente e inquisitória de Santana Lopes e Sousa Lara respectivamente Secretário de Estado e Subsecretário de Estado da Cultura do Governo de Cavaco Silva, que se arvoraram em defensores de uma moral pública proibindo a edição e divulgação de livros, filmes e textos de autores consagrados portugueses.

A 13 de julho de 1981, Natália Correia recebeu a medalha de Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada. Em 1991, foi-lhe atribuído o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores pelo livro Sonetos Românticos. No mesmo ano, a 26 de novembro foi feita Grande-Oficial da Ordem da Liberdade

Natália Correia casou quatro vezes. Após dois primeiros curtos casamentos, casou em Lisboa a 31 de julho de 1953 com Alfredo Luís Machado, a sua grande paixão, bem mais velho do que ela e já viúvo, casamento este que durou até à morte deste, a 17 de fevereiro de 1989. São já notáveis as cartas de amor da jovem Natália para Alfredo Luís Machado. Em 1990, tinha Natália 67 anos de idade, celebrou um casamento de conveniência com o seu colaborador e amigo Dórdio Guimarães.

Na madrugada de 16 de março de 1993, morreu, subitamente, com um ataque cardíaco, em sua casa de Lisboa. Legou a maioria dos seus bens à Região Autónoma dos Açores que lhe dedicou uma exposição permanente na nova Biblioteca Pública de Ponta Delgada, instituição que tem à sua guarda parte do seu espólio literário (que partilha com a Biblioteca Nacional de Lisboa) constante de muitos volumes éditos, inéditos, documentos biográficos, iconografia e correspondência, incluindo múltiplas obras de arte e a biblioteca privada.

Natália Correia ficou célebre não só pela sua actividade literária, mas também pelos seus discursos acesos e apaixonados proferidos no Parlamento, como é exemplo a pérola satírica em resposta a João Morgado, deputado da bancada parlamentar do CDS,
no debate sobre a legalização do aborto, no dia 3 de abril de 1982. Na sequência do “eloquente” discurso daquele deputado dizendo que : «A igreja Católica proíbe o aborto porque entende que o acto sexual é para se ver o nascimento de um filho», Natália Correia respondeu com um poema:

“O acto sexual é para ter filhos – diz ele”

Já que o coito — diz Morgado —
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;

e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.

Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou — parca ração! —

uma vez. E se a função
faz o órgão — diz o ditado —
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.

 

Naquele que é o fórum político por excelência, Natália Correia, foi capaz de elevar o direito ao prazer como questão política, traduzindo mais uma vez a sua indelével audácia e originalidade na assumpção da causa da humanidade. Maria João Martins, uma das suas biógrafas, sublinha esta peculiaridade, para num tom maior, confirmar Natália Correia poeta, escritora, politica, digna de figurar em qualquer história do Portugal do pós-25 de Abril[6].

No âmbito da sua actividade política, sempre primou por defender a cultura e o património que, como dizia, é o que nos torna únicos e diferentes do resto do mundo. A luta pela integração e emancipação da mulher na sociedade portuguesa era também parte relevante do seu pensamento político tendo sido a discussão do aborto na voz de Natália Correia uma das matérias que mais apaixonadamente saiu portas fora da Assembleia, e mereceu uma re-leitura de Fernando Rebelo, dez anos depois da sua morte, que pela sua atualidade nos servirá como mais uma âncora para fixar Natália Correia ao repositório edificado pelas mulheres de Abril.

Sempre veemente, no contexto dessa discussão afirmava, “Incansavelmente, defendo a diferenciação cultural da nossa sociedade. Mas ela faz-se com a verdade, não com a mentira.”

Também energicamente e sem rodeios assumia:

“Na discussão do respeito pelo direito à vida que fulcralmente anima os debates sobre a despenalização do aborto, firmemente tomo a direcção de atribuir maior valor aos direitos dos que geram a vida que humanamente se manifesta na fruição da consciência e da personalidade. Isto porque para mim respeitá-la é, em primeiro lugar, combater a fome, a alienação, os massacres, as guerras e a institucionalização do pesadelo nuclear que ameaça ceifar milhões de vidas”[7]

O busto de Natália Correia, da autoria de João Cutileiro, está perene nos claustros da Assembleia da República, sendo uma das duas únicas figuras femininas merecedoras de figurar naquele território predominantemente masculino. A outra é Maria Alda Nogueira. Em Carnide, na cidade de Lisboa, há uma Biblioteca com seu nome e são vários os concelhos onde figura nos respectivos marcos toponímicos.

 [1] Entrevista a Maria Teresa Horta, In Maria João Seixas, República das Mulheres, Bertrand Editora, 2010. p. 209. Ana Luisa Amaral e Irene Ramalho usam sempre o termo mulher poeta, atendendo não ao “feminino” mas à questão determinante da diferença sexual na escrita feminina pertinente em todo o fenómeno estético-literário ( texto CES, Abril, 1997). A este propósito, e para ir ao encontro nas mulheres grandes de Abril que da poesia fizeram arma, poetas e poetisas, lembramos as palavras de Guillaume Apollinaire “On peut être poète dans tous les domaines : il suffit que l’on soit aventureux et que l’on aille à la découverte» (Pode-se ser poeta em todos os domínios: basta que se seja aventureiro e que se parta à descoberta”

[2] Fernando Rebelo, A discussão do aborto na voz de Natália Correia, Natália Correia, 10Anos Depois, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2003, pp.53-57.

[3] Fernando Dacosta, O Botequim da Liberdade, Casa das Letras, 2013

[4] Natália Correia, 10 Anos Depois, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2003

[5] Entrevista de Natália Correia à TV Guia, 9/15 Fev.1985.

[6] Maria João Martins, Mulheres Portuguesas, Vol.I, Veja/Multilar, 1994, Natália Correia, pp. 88-89

[7] Diário da Assembleia da República, II Legislatura, Reunião Plenária 11 de Novembro 1982. p.335

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