EM MOVIMENTO

MDM presente na sessão pública «45 anos da Revolução de Abril e o fim do colonialismo português»

Realizou-se no dia  23 de Outubro, na Casa do Alentejo, em Lisboa, a sessão pública «45 anos da Revolução de Abril e o fim do colonialismo português»,  promovida pelas 12 organizações promotoras do Encontro pela Paz, realizado em Loures em 2018, e das quais faz parte o MDM.

A sessão, que contou com numerosa participação, foi moderada por Ilda Figueiredo (CPPC) e teve como oradores o Coronel Baptista Alves, Capitão de Abril (CPPC), Francisco Canelas (URAP), Ana Souto (MDM), Augusto Flor (Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto – CPCCRD), Jorge Cadima (MPPM) e João Barreiros (CGTP-IN). Intervieram também representantes da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) e do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA).

Na sessão foram abordadas as lutas dos povos em Portugal e nas ex-colónias antes do 25 de Abril de 1974, a luta e as condições de vida das mulheres e como todas estas lutas contribuíram decisivamente para a derrota do regime fascista português com a Revolução de Abril, que permitiu a conquista da liberdade e da Democracia e que, por sua vez, contribuiu para o fim do colonialismo, levando à independência dos países colonizados.

Foram reafirmados os valores de Abril que a Constituição da República Portuguesa consagra.

Boa tarde amigas e amigos,

Não é possível falar da Revolução de Abril e do fim do colonialismo sem lembrar “o antes” para melhor compreender a grandiosidade da importância desta Revolução e do contributo abnegado de todas e todos que participaram na luta.

Foram 48 anos de profunda exploração, obscurantismo e repressão exercidos por um regime autoritário que condenou Portugal ao atraso social e o povo português à fome e à miséria, negando todos os direitos às mulheres, relegando-as na lei e na vida para um papel subalterno na família, no trabalho, na vida social e política.

Foi um tempo de escuridão, de silêncios e silenciamentos terríveis, de profundas mistificações e humilhações.

Mas as Mulheres não se limitam a ficar em casa, tecendo pontos e murmúrios… e apesar de carregarem consigo o peso de uma cultura que tendia a afastá-las da participação, estiveram presentes na luta heroica travada pelo povo durante os 48 anos de fascismo.

As mulheres lutaram…

Nos campos, nas fábricas, nas escolas, nas ruas,…

Uma luta que sobe de tom, de intensidade nos anos da II Guerra Mundial.

As mulheres organizam-se…

Em 1936, surgiu a Associação Feminina para a Paz e, no final da guerra, em 1945, num ambiente de luta e de esperança surgiu a Federação Democrática Internacional de Mulheres (FDIM).

Nasce o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, com Mª Lamas como presidente, mulher símbolo de luta das mulheres, entre outras mulheres, que será presidente honorária do MDM após o 25 de Abril. O Conselho Nacional será encerrado em 1947.

Mas as mulheres lutam…

Muitas ocultarão o nome, a identidade, mergulhando numa outra qualidade de resistência, a clandestinidade, sofrendo a prisão, a tortura.

Outras ainda, às vezes as mesmas, retomam a luta.

E assim, elas estarão nas várias frentes de luta, em movimentos antifascistas, em movimentos organizados de mulheres. Em África, nas colónias, integram os movimentos de libertação.

Da participação das mulheres falam-nos as lutas pelas 8h de trabalho no Alentejo, simbolizadas no exemplo de Catarina Eufémia, morta quando exigia pão e trabalho. Muitas foram as trabalhadoras rurais presas e barbaramente espancadas.

Da sua participação fala-nos a luta das operárias conserveiras de Matosinhos e Algarve. Mulheres mal pagas, sem horário, por vezes dias a fio sem trabalho e sem remuneração, por vezes mais de 24 h na fábrica para responder a encomendas. Mulheres esgotadas, longas horas sem dormir e de pé, caiam inanimadas no local de trabalho.

Da sua participação falam-nos a luta nos setores dos têxteis e de material electrónico, as lutas estudantis, as lutas antifascistas com particular importância nas vagas de greves que ocorreram.

Em 1961, explode a guerra colonial.

O governo fascista, intimamente ligado a um punhado de famílias e aos grandes grupos monopolistas cria as condições necessárias ao aumento da exploração, fomenta e sustenta 3 guerras coloniais que, além de custarem milhões à “riqueza” do país, se saldaram pela morte e estropiação de milhares e milhares de jovens, pela morte de milhares e milhares de vidas inocentes, pelos muitos horrores vividos na guerra.

Por cá, as mulheres também vivem a guerra.

Mulheres de todas as regiões e idades

Aprendem o caminho do Cais.

E no cais dizem adeus aos que partem.

Partidos eles,

Partidos Nós,

Agitando lenços brancos,

Em saudade,

Incerteza,

Desespero.

Brancos os lenços

E negros os fatos das moças nas aldeias,

A aridez nos campos e nos lençóis grandes demais nas noites desamadas,

A ansiedade alongando o tempo…

As mulheres esperam…

Esperam carta.

Esperam o dia em que o homem voltará,

Ou não…

E 11 000 não regressarão jamais.

E em 1968 são já mortos 3 000.

As mulheres choram.

Mansamente ou em gritos altos,

Choram.

As mulheres esperam e choram.

As mulheres trabalham.

Como sempre trabalharam.

Mais do que sempre.

As mulheres lutam…

As mulheres disseram não ao horror e ao luto, levantaram a voz nos cais de embarque dos navios que partiam para África, apoiaram os filhos e marido na deserção, foram activas na condenação do colonialismo e da guerra.

Fazia-se sentir a mais feroz repressão à mais pequena manifestação de liberdade individual ou colectiva.

Nas cadeias de Caxias e Peniche, nos campos de concentração, milhares de homens e mulheres portugueses e africanos conheceram o preço da luta pela Liberdade, pela Democracia, pelo pão e pela paz.

Durante este período, a história do povo português é rica de heroísmo, forjado numa luta constante e tenaz contra o colonialismo e a guerra colonial, por melhores condições de vida e de trabalho, pela liberdade dos presos políticos. É uma história de homens e mulheres conscientes dos riscos que corriam, da sua dignidade e do seu amor à Liberdade, Democracia e Paz.

No final da década de 60 e primeiros anos da década de 70, as lutas não paravam.

O Dia Internacional da mulher passou a ser assinalado como dia de luta das mulheres.

O colonialismo agonizava.

As lutas pela libertação nacional alastravam.

As mulheres desempenharam papel de relevo em batalhas fundamentais para a resistência à brutal ditadura fascista, para a conquista da liberdade, para trilhar caminhos da emancipação e da igualdade.

Assim nasceu o MDM, herdeiro das várias organizações de mulheres que lutaram contra a opressão que se abatia sobre as mulheres e o povo.

O I Encontro Nacional do MDM ocorre em 21 de Outubro de 1969, na semiclandestinidade. São 250 mulheres que dão corpo, e voz ao movimento. Aprova-se pela 1ª vez um caderno reivindicativo, exige-se a libertação dos presos políticos, manifesta-se a solidariedade internacional e mais uma vez se reclama “Não à Guerra Colonial”.

E a 25 de Abril de 1974…a alegria veio para rua.

Foi “o dia”, a Madrugada, há longo tempo anunciada na nossa esperança…

Irromperam desejos e anseios, até então contidos e reprimidos, num mar de reivindicações e propostas nas empresas, nos bairros e nos campos.

As mulheres soltaram as suas vozes a favor da igualdade e da Paz. Com a Revolução de Abril as mulheres tornaram-se protagonistas da sua própria estória.

A Revolução de Abril deu corpo às liberdades e democracia, permitiu profundas transformações económicas e sociais, despoletou mudanças profundas na vida das mulheres, reconheceu os seus direitos, devolveu-lhes a dignidade, que inscreveu na Constituição da República Portuguesa. É um texto que, 45 anos depois, continua a ser uma bandeira de luta para a igualdade entre homens e mulheres e dos direitos fundamentais para todo o povo português.

A Revolução de Abril abriu caminhos que permitiram pôr fim à guerra colonial e ao colonialismo português.

Novos países nasceram, soberanos e independentes, também fruto da luta determinada que homens e mulheres travaram, organizados no seio dos movimentos de libertação – Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, S. Tomé e Príncipe e mais tarde Timor-Leste.

O MDM sempre teve acções de solidariedade com as mulheres e suas organizações que lutavam nas colónias portuguesas pela independência nacional e pela Paz, que ergueram os seus países, livres e independentes, das ruinas e das feridas da guerra.

Aproveitamos para saudar as organizações de mulheres desses países, e em particular aquelas com quem mantemos relações de amizade e afecto e, através delas, homenageamos todas aquelas mulheres heroicas que lutaram contra o colonialismo, que deram a vida pela independência do seu país.

Comemorar os 45 anos de Abril é relembrar neste tempo de recuos e retrocessos, num tempo que é de resistência, de defesa de direitos que tanto custaram a conquistar, onde facilmente se faz crer que as mulheres já tudo conquistaram, que as Conquistas de Abril marcaram a vida das mulheres e do povo português, deixaram rastos de glória na nossa memória colectiva.

Comemorar os 45 anos da Revolução de Abril é tudo fazer para manter vivo o seu significado nas novas gerações e no povo português: a conquista da liberdade e da democracia e as profundas transformações políticas, económicas e sociais como resultado de um longo processo de resistência e de luta antifascista que levou ao derrube da ditadura fascista pelo Movimento das Forças Armadas, em aliança com os trabalhadores e o povo.

É intervir para que se continue a exigir o cumprimento dos direitos e valores de Abril, a exigir uma política assente na justiça social, no progresso e desenvolvimento do país, na construção de uma verdadeira política de igualdade.

É intervir a favor da Paz num tempo em que se fomentam e apoiam guerras, se assiste a uma crescente militarização, se assiste à ingerência em países soberanos, num quadro de elevados riscos para a estabilidade mundial, para a Paz, para a humanidade e o planeta. Num quadro em que a defesa da Paz ganha uma importante expressão na luta das mulheres.

O MDM saúda a Revolução do 25 de Abril de 1974.

wb_gestao2MDM presente na sessão pública «45 anos da Revolução de Abril e o fim do colonialismo português»

Related Posts