EM MOVIMENTO

MDM celebra 50º aniversário com inauguração de exposição

O MDM inaugurou ontem a Exposição Comemorativa do seu 50º aniversário, intitulada «MDM 50 anos em Movimento. Mulheres fazendo história.» Esta exposição, que estará patente na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa, até ao próximo dia 19 de Maio, é constituída por documentos do arquivo do MDM, espelhos dos grandes momentos históricos que o país e o mundo atravessaram, ligando a luta das mulheres portuguesas por direitos sociais, direitos políticos, direito ao trabalho e salário igual, tráfico de seres humanos, IVG, à luta de solidariedade com mulheres em causas da independência, da libertação, contra as guerras e assassinatos, contra a exploração sexual das mulheres, o respeito pelas imigrantes, pela orientação sexual e a identidade de género.

INTERVENÇÕES

Senhora Directora da Biblioteca Nacional Drª Maria Inês Cordeiro
Senhora Presidente da CIG Drª Teresa Fragoso em representação da Senhora Secretária de
Estado da Cidadania e Igualdade Drª Rosa Monteiro
Caras Amigas e Amigos de organizações de mulheres e outras associações parceiras
Senhoras e Senhores

Em primeiro lugar o nosso agradecimento à BN, aos seus trabalhadores e trabalhadoras, a toda a equipa liderada pela DRª Manuela Rego. Permitam-me particularizar a equipa das Relações Públicas e destacar a prestimosa e inexcedível colaboração da Ana Nogueira na
montagem da Exposição, com o seu rigor e disponibilidade, com a sua permanente afabilidade.

Quero agradecer ao Grupo Coral as Papoilas do Enxoé de Vale de Vargo e à Presidente da União de Freguesias de Vila Nova de S. Bento e Vale de Vargo, Maria Manuela Valente Pica, à Casa do Cante de Serpa e à C.M.Serpa, que nos trazem o sabor do Cante Alentejano no feminino, para com todas darmos um passo maior na salvaguarda do Cante alentejano como património cultural imaterial da humanidade.
Também quero agradecer à Andreia Egas e Vanessa Borges que nos trouxeram a poética de mulheres do nosso tempo.
Ao Fernando Carvalho e à Luísa Antunes pela concepção da exposição e disponibilidade em toda a fase de criação.

O MDM celebra em 2018, os 50 anos da sua existência. Meio século na existência de uma organização de mulheres com uma actividade constante e permanente é um facto inédito que deve ser entendido como um estímulo à participação das mulheres e que se pode
inscrever nos anais como testemunho de que vale a pena lutar, vale ser temerário e persistente.
Esta Exposição que hoje se inaugura conta uma história, um passado e um presente, de um Movimento de Mulheres que tem singularidades no panorama nacional dos movimentos de mulheres e uma marca distintiva que o projecta para um futuro.
50 anos em Movimento. Mulheres fazendo história, é o título que demos à Exposição e que traduz um percurso inquieto, solto mas comprometido. Comprometido com um passado de gestos feitos por mulheres de todas as camadas sociais, desafiador de utopias
e compromissos futuros, ávidos de mudanças. Porque como afirmamos muitas vezes, as mulheres, sendo atoras de significativas mudanças no Séc. XX, continuam a ser no Séc. XXI, as vítimas sempre que os retrocessos pairam sobre as nossas vidas.
Em nós, MDM, persiste a esperança de um amanhã mais luminoso, e por isso não desistimos.
É uma honra e foi um desígnio justo escrever aqui, nesta Biblioteca, arquivo dos arquivos, mais alguma página da história das mulheres portuguesas. Uma história que conta o passado, desocultando silêncios e esquecimentos. Conta o presente e as muitas
experiências de mulheres e suas vivências enquanto colectivo. Uma história que dá sentido ao futuro que desejamos, de progresso e de paz.
A Exposição tem documentos do arquivo do MDM, necessariamente fragmentário e incompleto, documentos que são espelhos dos grandes momentos históricos que o país e o mundo atravessaram, ligando a luta das mulheres portuguesas por direitos sociais, direitos
políticos, direito ao trabalho e salário igual, contra as violações e violências, tráfico de seres humanos, Interrupção voluntária da gravidez, à luta de solidariedade com mulheres em luta por causas da independência e da libertação, contra as guerras e assassinatos, contra a
exploração sexual das mulheres e a prostituição, o respeito pelas imigrantes, pela orientação sexual e a identidade de género e suas diferentes manifestações culturais.
O património documental do MDM mostra que somos um movimento com um passado de afirmação, vinculado à promoção das mulheres e suas teias de solidariedades e afectos.

Este conjunto de painéis, imagens e textos pode ser lido como uma estratificação que desocultada nos dá conta de processos originais da construção do MDM mas pode também ser visto como memórias individuais e colectivas, de mulheres singulares que muito deram
ao Movimento e que nele se revêem.
Os documentos aqui trazidos são os nossos monumentos. São vestígios da nossa memória. Fragmentos parciais, é certo. “Falta sempre qualquer coisa” como diz Pierre Nora, mas é o nosso testemunho restituindo dignidade ao percurso colectivo do MDM.
As imagens que aqui mostramos são os nossos olhos, passados, presentes e futuros. Olhos da história, roupas da história. Roupagens e montagens de tempos difíceis, de vivências presentes, de sobrevivências, de ressurgências, de tantas outras memórias (individuais e
coletivas).
O MDM é um Movimento com a força da vida. O MDM nasceu e cresceu vivendo momentos empolgantes. Os processos eleitorais de 1969 e 1973, a luta pela libertação dos presos políticos e contra a guerra colonial marcaram a sua atividade nos últimos anos do fascismo.
Uma ditadura que perdurou 48 anos, que deixou o país na miséria e no obscurantismo, que o 25 de Abril veio pôr fim.
Foi um tempo de escuridão. De silêncios e silenciamentos terríveis. De profundas mistificações e humilhações. O papel atribuído pelo fascismo à mulher resumia-se a procriar e respeitar a autoridade exercida pelos maridos, os chefes de família.
Foi o tempo das discriminações consideradas legais, da mulher fada do lar, do eterno feminino e da opressão das mulheres.
Ao que elas responderam de cabeça erguida.
No fim da década de 60 e início de 70, as lutas não paravam. De tonalidades e intensidades diversas. O colonialismo português agonizava. As lutas pela libertação nacional alastravam.
Nesta onda de indignação nasce o Movimento Democrático de Mulheres, herdeiro de outras organizações de mulheres reprimidas, fruto de uma vontade colectiva de lutar contra a opressão que se abatia sobre as mulheres e o povo. Pela liberdade e a libertação das
mulheres. Por direitos para as mulheres em todas as esferas da vida. Contra a humilhação e a subalternidade na família ou no trabalho. Pela igualdade. Cientes que só em movimento e com organização lá chegariam.

No dia 25 de ABRIL … a alegria veio para a rua
As mulheres agarram nas suas mãos a defesa dos seus direitos e organizam-se para intervir com voz própria. Juntam-se na luta pela igualdade na lei como na vida. O MDM abre as portas à participação das mulheres de todo o país. São muitas as que se abeiram para intervir na sociedade em prol da promoção das mulheres, do combate às desigualdades e de condições de vida e de trabalho dignas.
A escrita feminina, a reportagem, a poesia ligada ao quotidiano das mulheres foi transbordante. Elas estavam por toda a parte, falando a quem as quis ouvir. Foi a emergência de novos sentidos para a vida.
Na nossa memória, Abril foi um tempo de festa e de sonho, de cravos rubros, quando a liberdade queria dizer reencontro e diálogo aberto com os povos e as mulheres do mundo, de fronteiras finalmente abertas.
A Revolução que às mulheres devolveu a dignidade, inscreveu na Constituição da República, de 1976, as grandes transformações políticas e económicas de Abril, e o fim da discriminação com base no sexo.
Uma Revolução, que por o ser, teve sérios adversários e inimigos. Inimigos que, nunca desistiram de pensar na sua liquidação. Liquidação de direitos. Retrocessos sociais. As mulheres sempre as primeiras a sentir os seus efeitos. Reacendeu-se o medo. Medo de ser
despedida. De ter mais filhos. De ser violentada ou assediada.
Neste tempo que é o nosso, as questões das mulheres marcam a agenda mediática,aliciam o discurso dominante que reproduz insistentemente quase como cópias universais, temáticas problematizadas de há muito pelo nosso movimento e que continuam não
cumpridas ou submetidas a novos olhares ou derivas.
Neste tempo que é o nosso, novos estereótipos surgem a justificar a precariedade no emprego e a remeter a mulher para processos de trabalho, ínvios, duros, sem direitos, com Horários, ritmos, desregulados e intensivos, desumanos. Dificuldades acrescidas no
exercício da maternidade/paternidade.
Neste tempo, que é nosso, novos mitos e ilusões sugerem a bondade da flexibilidade ou a inevitabilidade dos baixos rendimentos. As consequências são conhecidas no plano político. No desencanto e desânimo. No regresso das mulheres a casa por força do
desemprego ou dos baixos salários. Na perda da independência económica fundamental para a sua emancipação. Levadas a desinteressar-se da política, perdem a alavanca fundamental, para a alteração de vida que aspiram. Não participam ou participam menos,
não votam ou decidem segundo o pendor mediático dominante. Tal como os homens, diga-se!
Mas há sempre quem resista e lute.
Neste tempo que é o nosso, novas expectativas se abrem e esperamos que a igualdade na lei seja escrita na Vida.
Assim o determinam vários documentos nacionais e internacionais desde 1975. A igualdade constitui “a pedra angular de toda a sociedade democrática que aspira à justiça social e à realização dos direitos humanos”, como consta da Declaração e Programa de Acção de
Viena. A Carta Internacional dos Direitos Humanos (2002) traz um peso e alcance acrescentados aos direitos das mulheres e configura um novo alento para a justeza e actualidade da nossa luta.
Hoje, com esta Exposição que assinala 50 anos do MDM, e esperamos seja do vosso agrado, vemos com alegria e confiança a luta das mulheres por politicas de igualdade que vão ao encontro dos problemas mais urgentes da vida das mulheres, que não dissociem os
aspectos culturais ou de mentalidades, da luta pela justiça social, por direitos laborais e fundamentais das mulheres como cidadãs, trabalhadoras e mães, num quadro em que é imprescindível o desenvolvimento estratégico do país.
Como verão no percurso aqui desenhado, a história do MDM é feita de muitas lutas, muitas convergências, muitas pontes. É uma história, que poderia ser representada e cartografada no grande Atlas dos direitos das mulheres, por similitude com o Atlas de Warburg.
É uma história em progresso, que cada dia se tece e reconfigura – com tudo o que nos cerca – mas é essa tessitura que nos revitaliza e dá força para continuar fazendo história.

GALERIA

wb_gestao2MDM celebra 50º aniversário com inauguração de exposição

Related Posts