Maria José Brito Estanco Machado da Luz nasceu a 26 de março de 1905, na freguesia de São Clemente, Loulé, e faleceu em Lisboa em 30 de setembro de 1999.
1.ªArquitecta portuguesa.

Vive o 25 de Abril com alegria e entusiasmo. Adere à organização de mulheres como coisa natural que abraça como coisa sua.

Maria José Estanco, filha de Joaquim Francisco Estanco e de Maria da Conceição Brito, foi casada com o conhecido pintor Raimundo da Silva Machado da Luz, natural de Ponta Delgada, com quem viveu 57 anos.

Maria José Estanco nasceu a 26 de março de 1905 na freguesia de São Clemente, Loulé e faleceu em Lisboa em 30 de setembro de 1999. Foi a primeira mulher portuguesa a licenciar-se em arquitectura, depois de ter cursado e ensinado Desenho.

Por razões familiares deslocou-se com sua mãe ao Brasil onde esteve durante dois anos, tendo a sorte de assistir ao nascimento da cidade de Marília, a nordeste de São Paulo, trabalhando com o engenheiro belga que dirigia a obra. Influenciada por esta primeira experiência, quando regressou a Lisboa, matriculou-se em Arquitectura, onde, no final do curso, recebeu o prémio de O Melhor Aluno de Arquitectura. Tornou-se assim primeira arquitecta portuguesa em 1942.

Seguindo a biografia traçada por Glória Marreiros[1], Maria José Estanco não sentiu discriminação durante a vida académica mas já, ao pretender entrar no mundo do trabalho, a situação foi diferente. Chegou a ser caricaturada nos jornais da época. Não acreditavam que uma mulher fosse capaz de realizar projectos de arquitectura exequíveis. Tentou o ingresso em vários ateliers, mas não conseguiu ser admitida. Só os amigos a procuravam para fazer projectos. O seu grande projecto arquitectónico foi uma casa em São Pedro de Muel como refere na entrevista que deu para Faces de Eva[2]. Também fez jóias, com concepção e desenho seus. Com o dinheiro desses projectos pode fazer algumas viagens com que sempre sonhou. E foi assim que visitou o Egipto, Grécia e URSS, ainda antes do 25 de Abril.

Era então tudo tão difícil que começou a dedicar-se à decoração de interiores e à criação de móveis. Como nos demais ramos do saber, também na arquitectura, as mulheres têm sido excluídas da história (ou têm papéis secundários) e as contribuições femininas permanecem subestimadas. As arquitectas pioneiras, mesmo no plano internacional, foram quase todas confrontadas com a arquitectura doméstica e com a decoração de interiores, quase como um prolongamento natural das tarefas femi­ninas.[3]

Gratuitamente, Maria José Estanco criou na revista Modas e Bordados, uma secção nas áreas a que acabou por se dedicar. Concorreu ao ensino e foi professora nos liceus D. Filipa de Lencastre, Maria Amália e Passos Manuel, em Lisboa e ainda no Carolina Micaelis, no Porto.  Também, gratuitamente, deu aulas de desenho e pintura a reclusos do Estabelecimento Prisional do Linhó. Por convite, foi professora do Instituto de Odivelas, instituição à qual ficou muito ligada afectivamente.

Maria José Estanco terminou a parte curricular do curso em 1935 mas só em 1942 teve oportunidade de defender tese que versou sobre o projecto arquitectónico daquele que veio a ser o primeiro Jardim-Escola João de Deus a ser construído no Algarve. No dia em que defendeu tese teve a presença do Dr. João de Deus Ramos, filho do poeta e autor da Cartilha Maternal que muito a felicitou.

Democrata convicta e pacifista, pertenceu à Direcção do Conselho Nacional para a Paz (secção de desarmamento). Depois da resistência ao fascismo, que lhe custou uma vida cheia de dificuldades e o afastamento do ensino público, vive o 25 de Abril, com alegria e entusiasmo. Adere à organização de mulheres como coisa natural que abraça como coisa sua.

Participou no 3.ºEncontro Nacional do MDM, realizado a 15 de Maio de 1977, e em 1980 no I Congresso do MDM foi eleita para o seu Conselho Nacional, tendo tido uma participação regular e entusiástica na vida do Movimento. Enquanto teve saúde colaborou na organização de exposições relacionadas com a actividade do MDM e acompanhou muito de perto os seus trabalhos. Enquanto dirigente do MDM participou nos Congressos da Federação Democrática Internacional de Mulheres (FDIM) em Praga, na Finlândia e na URSS.

Maria José Estanco deu muito do seu esforço, da sua inteligência e sensibilidade à causa da emancipação da mulher, razão pela qual o MDM lhe conferiu, em 1992, a Distinção de Honra, numa cerimónia que decorreu no Castelo de São Jorge e em que a homenageada, já doente e com 87 anos, proferiu, de improviso, uma brilhante e comovente alocução.

Faleceu com 94 anos, tendo, nos últimos tempos, vivido emocionalmente muito perturbada após a morte do seu único filho, o arquitecto e crítico de cinema, Manuel José Estanco Machado Luz.

Seu marido, Raimundo Machado da Luz, professor de arte, destacou-se pela sua obra de pendor social inscrita no neo-realismo português, tendo paralelamente ensinado na Sociedade Nacional de Belas Artes. Também ele teve um percurso pouco convencional, não pactuando com os cânones artísticos do Estado Novo e produzindo uma obra onde avultam as pinturas tendo como tema As Mulheres. O Museu Carlos Machado, em Ponta Delgada, possui mais de duas centenas de obras da sua autoria.

Maria José Estanco figura para sempre na história das mulheres intelectuais que fizeram da arte a sua arma pelos direitos das mulheres, que expuseram o seu pendor artístico e se expuseram a si próprias numa luta solidária e fraterna num movimento em movimento incessante com mulheres de todas as condições. Quando em 1992, recebe a Medalha de Honra do MDM, deixa-nos o seu voto expresso e a confiança de que Abril e as suas grandes conquistas perdurem. Os últimos anos da sua vida são de uma tristeza profunda, mas a sua energia e vivacidade ficaram presentes para sempre na toponímia lisbonense, numa rua com seu nome, na freguesia de Carnide.

[1] Glória Maria Marreiros, Quem Foi Quem? 200 Algarvios do Século XX, Edições Colibri, Lisboa, 2000.

[2] Depoimento oral recolhido por Elisabeth Évora Nunes e Maria do Céu Borrêcho e publicado na Revista Faces de Eva, números 1-2,1999, p.223-225.

[3] Lia Pereira Saraiva Gil Antunes, Arquitectura : substantivo feminino: contribuição para uma história das mulheres na arquitectura. Coimbra : [s.n.], 2012.

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