EM MOVIMENTO

Faleceu Maria Velho da Costa, mulher de Abril

Maria Velho da Costa, a nossa gratidão à nossa companheira de palavras e gestos que revolucionam as nossas ideias e incentivam à transformação.

Maria de Fátima Bívar Velho da Costa nasceu em Lisboa, a 26 de junho de 1938 e morre a 23 de Maio de 2020 com 81 anos de idade. Movimento de Mulheres ligado à vida, o MDM apresenta sentidas condolências à família com a inabalável certeza de que a morte não leva Maria Velho da Costa, nem a sua obra será esquecida nem o seu legado para a revolução de abril, nem apagado o seu contributo para essa autentica revolução para as mulheres.
Em 1976, Maria Velho da Costa dá um contributo inequívoco à sua inquietação sobre o lugar das mulheres, ao publicar Revolução e Mulheres numa edição de Cravo. Foi um texto que se eternizou nos palanques da Revolução, com uma força avassaladora junto das mulheres.

Nos 40 anos de Abril, o MDM integrou Maria Velho da Costa num leque de 40 mulheres que quisemos, para lembrar e dar a conhecer às gerações atuais quanto, escritoras como esta, trouxeram a poesia para as ruas, para os campos e para o quotidiano das mulheres, naquela madrugada de Abril feita Revolução.

Morre a escritora. Contudo, a sua memória continua a povoar o nosso quotidiano. A povoar o nosso imaginário coletivo. Ela deu-nos inesquecíveis momentos de sublime dimensão humana que ficarão célebres entre nós. Amplamente reconhecida pelos seus pares e pela sociedade, Maria Velho da Costa é uma mulher de Sempre, contagiante com seu poemário na nossa luta pela dignificação das mulheres. Maria Velho da Costa é uma Mulheres de Abril.

Enquanto escritora, o seu trabalho literário contribuiu para o movimento de renovação na literatura portuguesa da década de 60 do século XX, destacando-se o carácter inovador do seu experimentalismo linguístico, a transgressão formal e o diálogo com a literatura tradicional portuguesa. Maria Velho da Costa é, consensualmente, reconhecida como uma das mais inovadoras ficcionistas portuguesas. Os seus pares sublinham a sua criatividade e o modo inventivo como trabalhava a língua portuguesa. A juntar à riqueza estilística e lexical, a obra de Maria Velho da Costa revela ousadia e inconformismo, e aborda temáticas como a crítica à sociedade e à moralidade vigente e ainda a denúncia da condição social, cívica, jurídica e humana da mulher.
É de uma escrita comprometida e desassombrada que se trata quando se aborda a obra de Maria Velho da Costa.

Senhora de uma obra com uma energia sem paralelo, Maria Velho da Costa é responsável por alguns dos romances mais importantes do panorama literário contemporâneo, como Maina Mendes (1969), Casas Pardas (1977), ou Missa in Albis (1988), bem como por várias obras de prosa poética, contos, crónicas, análise social. É autora de alguns dos mais significativos romances da ficção portuguesa posterior ao 25 de Abril, como Casas Pardas (1977), Missa in Albis (1988) ou o mais recente Myra (2008).

Maria Velho da Costa recebeu vários prémios literários e ainda a Medalha Infante D. Henrique, em 9 de Junho de 2003 e a da Liberdade em 25 de Abril de 2011. Fez-se então um reconhecimento político de grande justeza a uma mulher, cidadã e escritora, que enfrentou corajosamente a censura durante o fascismo e deu à Revolução de Abril palavras que, acalentando sonhos de tantas mulheres, perduram no tempo.

Foi aliás uma violenta crítica à mísera condição social, política e humana da mulher na sociedade portuguesa que resultou na escrita, com Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno – as «Três Marias» – das célebres Novas Cartas Portuguesas em 1972, obra que o regime salazarista, então já a entrar na chamada Primavera Marcelista, não resistiria a condenar em tribunal por ofensas à moral vigente.

A condição das mulheres é uma questão seminal na sua obra. As suas personagens – mulheres – reivindicam o seu lugar no mundo. São, a um tempo, mulheres silenciadas e reprimidas na fala que começam a afirmar-se impondo-se aos outros na sua individualidade e na sua inteireza tornando audível a reivindicação do seu lugar no mundo.

Podemos dizer que os seus textos são gritos de alerta para a consideração de uma nova ordem, de novos espaços e tempos para as mulheres. Capaz de nos dar o prazer da leitura em cada momento, a literatura de Maria Velho da Costa espelha a vida do que somos e fomos, dá-nos a história e a inteireza das nossas relações como humanos.

Ela fez da literatura, a denúncia, o grito de sobressalto, o cenário da revolta. Mulher de grande verticalidade, Maria ficará para sempre ligada à Revolução de Abril e à luta transformadora da condição social e política das mulheres portuguesas, com a eloquência de uma escrita de denúncia histórica e esperança que as atuais gerações do MDM não deixarão perder. A edição de um vídeo do MDM com vozes de atrizes dos nossos dias celebrando a data histórica do 25 de abril em 2019 em homenagem discreta mas sentida a essa mulher que tanto valor deu ao teatro e suas profissionais, hoje como ontem sacrificadas e esquecidas.

A nossa gratidão à nossa companheira de palavras e gestos que revolucionam as nossas ideias e incentivam à transformação.

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