EM MOVIMENTO

Faleceu Fernanda Lapa, conselheira nacional do MDM, actriz, encenadora e professora universitária

É com profunda consternação que recebemos a notícia do falecimento da nossa querida Fernanda Lapa, amiga e Conselheira Nacional do MDM.

Uma mulher extraordinária, incansável na luta pela igualdade e democratização da cultura. Uma mulher de coragem, sempre em defesa do “lugar de corpo inteiro” para as mulheres do Teatro. Uma mulher militantemente empenhada na luta pelo progresso e emancipação das mulheres, e do povo do seu país.

Enquanto actriz, encenadora, professora e aderente do MDM, aliando a sua experiência e conhecimento, contribuiu de forma indelével para as mulheres na cultura, em particular para as mulheres do teatro. A Escola de Mulheres é exemplo da sua tenacidade e da sua marca em gerações de mulheres e homens no teatro e na vida.

Com a Escola de Mulheres foi possível dar expressão no teatro a uma das batalhas de Fernanda Lapa: a da igualdade entre mulheres e homens, no teatro e na vida. «A Escola de Mulheres – Oficina de Teatro nasce como companhia que privilegia, desde a sua criação, o trabalho feminino e que procura dar uma imagem da mulher consentânea com a realidade»

Em 2015, o MDM teve a oportunidade de se juntar à Junta de Freguesia de Carnide, na homenagem a Fernanda Lapa, a propósito das comemorações do Dia Mundial do Teatro.

Guardaremos esta querida amiga na nossa memória colectiva, com toda a gratidão pelo seu contributo e amizade ao longo dos anos.

Por fim, recorremos às palavras de Fernanda Lapa, proferidas no X Congresso do MDM, em 2018, e que descrevem a batalha de uma vida:

«Tenho dedicado toda a minha vida profissional à Cultura e à Arte, a tentar produzi-las, fruí-las e pensá-las.

Há 55 anos que vivo buscando nelas a minha felicidade, e tentando compartilhá-la com todos aqueles a que consigo chegar. Desde sempre sonhei que o direito à criação e fruição da Cultura e da Arte teria de ser igual para todos – homens e mulheres, como aliás está consignado na nossa Constituição de Abril. Gostaria muito de estar aqui hoje para vos anunciar que esse sonho está plenamente realizado ou muito perto de se realizar, mas a realidade é bastante diferente. Há largos anos que os diversos Governos – PS, PS/CDS, PSD, PSD/CDS – têm vindo a demonstrar um total desprezo pela Cultura e pela Arte e, consequentemente, pelos seus agentes.

Basta lembrar que o Orçamento para a Cultura é um dos mais baixos da Europa. E continuará a sê-lo neste novo Orçamento do Estado do Governo PS para 2019 – 0,2%, (250 milhões de euros que o Governo pretende camuflar somando-lhes a dotação para a RTP, cuja missão não é especificamente cultural, mas transversal a todas as áreas), e isto apesar de todos os protestos históricos e acções conjuntas dos agentes culturais que reivindicam 1% para a Cultura. E nestas acções as mulheres estão presentes em grande maioria, lado a lado com os seus pares, lutando pelos direitos de todos, mas normalmente invisíveis para a Comunicação Social e, consequentemente, para aqueles a que chamamos “o grande público”.

Sou, sobretudo, uma mulher das Artes de Palco e em 1995, em colaboração com outras mulheres de Teatro resolvemos criar uma Companhia que rompesse com o estado de coisas a que estavam remetidas as mulheres no teatro português. Quase nunca nenhum texto de autoria feminina era representado, havia pouquíssimas encenadoras e estas ficavam na maior parte dos casos sempre à espera de serem convidadas pelos Directores das Companhias. A maioria das peças representadas davam da mulher imagens estereotipadas ou idealizadas e os elencos eram maioritariamente masculinos. As actrizes esperavam ser convidadas e nunca tinham hipótese de escolher os textos que gostariam de representar. Na maior parte das Companhias as mulheres tinham funções de secretariado, eram bilheteiras, costureiras ou empregadas de limpeza. Havia muito poucas mulheres em funções técnicas, tais como Luminotécnica, Sonoplastia, construção de Cenários, etc., profissões tradicionalmente masculinas.

Resolvemos, pois, como já disse, criar a Escola de Mulheres-Oficina de Teatro, companhia que privilegiasse o trabalho feminino e desse da mulher uma imagem consentânea com a realidade. A recepção desta Companhia por parte dos poderes públicos foi, desde logo, hostil. No primeiro pedido de apoio junto da Secretaria de Estado da Cultura (PSD) nem sequer obtivemos resposta. Só após o primeiro espectáculo apresentado a convite da Fundação Gulbenkian conseguimos ter algum eco junto da Comunicação Social e, consequentemente do poder político.

23 anos após a criação da Companhia continuamos a ser a estrutura menos financiada dos chamados apoios sustentados, sem hipótese de divulgar o nosso trabalho visto os custos de publicidade serem incomportáveis e em consequência disso, ficando cada vez mais invisíveis. Apesar de todas as campanhas ministeriais, em prole da igualdade de género, é impossível alguém afirmar que ela existe no teatro português. Desde a criação da nossa Companhia, algumas outras de iniciativa feminina foram nascendo, uma ou outra foi crescendo, mas nenhuma com apoios sólidos e, no último Concurso vimos desaparecer três delas, sendo que a Directora da mais antiga até tinha recebido, em 2017, a Distinção Mulheres Criadoras de Cultura na categoria Teatro, da CIG.

O exemplo do teatro repete-se nas várias áreas da Cultura.

Cultura é perversamente confundida com entretenimento ou Indústria Cultural e as televisões fazem isso muito bem. Vemos muitas mulheres, na maior parte jovens e bonitas, repetindo clichés e apresentadas nos vários canais como mulheres da cultura e da arte. Vemos, por outro lado, as jovens artistas no desemprego ou subemprego, obrigadas a aceitar trabalhos que as não dignificam como criadoras – como referia uma jovem colega, a necessidade de encher o frigorífico sobrepõe-se à opção de escolha, e por tudo isto somos obrigadas a repetir até à exaustão – Minhas amigas temos de dar a volta a isto.

Todos nós temos de reivindicar o direito à Cultura, à Criação e à fruição da Arte. E aí, como em todas as esferas da nossa sociedade, as mulheres não podem ser tratadas como cidadãos de segunda. As mulheres são inquestionavelmente a maioria na área da cultura em Portugal. Continuam a não existir estudos e diagnósticos, que tornem visível a dimensão da sua ocultação, das consequências das políticas realizadas na área da cultura, na renovada desvalorização das suas competências e saberes e postos em causa o seu estatuto e os seus direitos.

É preciso ter consciência que não só perdem estas mulheres, enquanto criadoras de cultura, mas perdem todas as mulheres portuguesas no seu direito à fruição cultural. Perde o País!

Como mulher da cultura e do MDM sei que a acção deste Movimento é de extrema importância para as mulheres desta área. Também elas têm de sentir que podem partilhar connosco os seus problemas e as suas legítimas aspirações de viver e criar em igualdade.

Concluo pedindo a todas e todos aqui presentes que reafirmem, de todas as formas possíveis, a exigência dos Agentes Culturais – 1% para a Cultura. Obrigada»

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