EM MOVIMENTO

Prostituição não é trabalho! Um debate sobre a Verdade!

O MDM – Movimento Democrático de Mulheres realizou, no dia 28 de Junho no Espaço Santa Catarina em Lisboa, um debate inserido na luta contra a criação de uma «plataforma local de intervenção na área do trabalho sexual na cidade de Lisboa» por iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa.

O debate,  que contou com a intervenção de Lily da Nóbrega e Sandra Benfica do MDM, de Sofia Fernandes da PpDM e Dália Rodrigues da Associação “O Ninho”, realizou-se dois dias após a importante decisão da Assembleia Municipal de Lisboa ter aprovado uma recomendação que determina a não utilização do termo «trabalho sexual» em todas as áreas de intervenção do município, e a exige que o município recentre a sua acção na área da prostituição na perspectiva do apoio e protecção às pessoas prostituídas, face à violência que sobre elas é exercida, promovendo programas de formação profissional e de emprego/trabalho digno, bem como de reinserção social em várias áreas.

A Petição Prostituição não é trabalho e que conta já com o apoio de mais de 2500 subscritores desde o seu lançamento a 11 de junho pode ser assinada em http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT89760

LER INTERVENÇÕES

Debate em defesa da dignidade das mulheres
28 de junho de 2018
Sandra Benfica
MDM

Em 1934, Brecht, escreveu “quem quiser combater a mentira e a ignorância e escrever a verdade deve superar pelo menos cinco dificuldades. Deve ter a coragem de escrever a verdade, embora ela seja negada em toda a parte; inteligência para reconhecê-la, pois ela está oculta em todos os espaços; habilidade para manipulá-la como arma; discernimento para seleccionar as pessoas em cujas mãos ela será eficiente; e engenho para disseminá-la entre essas pessoas“

O debate que aqui realizamos insere-se no combate à mentira. À mentira que nos querem vender para ocultar a verdade sobre a  prostituição.

Há muito que tentam, usando os mais variados recursos e malabarismos. Ainda aqui em Lisboa, em 2012, surgiu sob a capa de Safe-House para esconder o que na verdade era: um bordel patrocinado pela CML! Só não foi por diante porque o travamos com a força da nossa intervenção.

Agora veio sob a forma de plataforma. Disseram de «intervenção local», para  conhecer, e articular, e melhorar… nunca revelando contudo o seu verdadeiro objecto e objectivo.

Desta vez quiseram ir mais longe a ver como corria. «na área doTrabalho Sexual» completaram. Terminologia polémica, reconheceu o vereador Ricardo Robles, mas exactamente a que pretendia usar durante o seu mandato por considerar, de acordo com a sua convicção, ser a “adequada”. Mas disse mais, e cito, “não quero discutir nem marcar um debate sobre a legalização da prostituição, porque entendo que não o quero fazer agora, embora possa e tenha posição”

Questionado sobre a natureza de tal intervenção local que pretendia realizar, só sobre grande pressão conseguiu dar dois exemplos, únicos, sobre o seu grande plano: distribuir preservativos em nome da saúde dos trabalhadores do sexo e, porventura, retomar o projecto do bordel, quem sabe ainda na Mouraria.

Mas a mentira tem perna curta, e no dia 30 de Maio caiu a primeira mascara,  ficando claro quais os reais objectivos que presidiam à dita «plataforma» agora plasmados na Moção apresentada pelo BE na CML, que “insta o Parlamento a fazer o debate e a promover um quadro legal para a prostituição”.

Portanto o debate sobre a regulamentação da prostituição que o senhor vereador não queria fazer, é afinal para fazer, mas a pedido, da maior autarquia deste país.

Esta Moção, que foi aprovada pelos vereadores do PS e BE, contraria grosseiramente as afirmações e o compromisso assumido pelo Presidente da Câmara Municipal de Lisboa quando questionado pelo MDM em reunião pública.

E sobretudo passa ao lado da forte contestação que tem sofrido a dita «plataforma» desde a convocação da sua primeira reunião:

Contestação manifestada na recusa do MDM, da PpDM e do “O Ninho“ de participarem numa perversa e inusitada plataforma que assume o conceito de de que a prostituição é um trabalho, uma profissão, para as mulheres do e no nosso país;

Contestação manifestada na união de 13 organizações que no 25 de Abril afirmaram a uma única voz que a prostituição é violência contra as mulheres;

Contestação manifestada com o lançamento da petição dirigida à Assembleia Municipal de Lisboa em defesa da dignidade das mulheres “Prostituição não é trabalho!” e que recolheu, num curtíssimo espaço de tempo, mais de 2500 assinaturas e que neste momento, por iniciativa de organizações e personalidades estrangeiras, está a recolher um enorme apoio internacional.

Há dois dias, o MDM voltou a dirigir-se à Assembleia Municipal e aos seu eleitos perguntando “ é esse o passo que querem dar na cidade de Lisboa, o passo de institucionalizar a violência contra as mulheres conforme propõem os mentores da dita «plataforma»? ou aceitam antes o repto de integrarem a longa lista de subscritores da nossa Petição assumindo o compromisso de intervir correctamente num sério problema social e que tem de ser travado com coragem protegendo as pessoas prostituídas?

Nessa mesma  reunião da Assembleia Municipal houve uma resposta. Foi aprovada, por maioria, uma recomendação proposta pelos eleitos do PCP com dois pontos:

1º a não utilização do termo «trabalho sexual» em todas as áreas de intervenção do município;

2º a exigência de o município recentrar a sua acção na área da prostituição na perspectiva do apoio e protecção às pessoas prostituídas, face à violência que sobre elas é exercida, promovendo programas de formação profissional e de emprego/trabalho digno, bem como de reinserção social em várias áreas.

Permitam-me que saúde esta decisão da AML e as forças políticas que assumiram com clareza qual o caminho que deve ser seguido na intervenção municipal.

Mas não poderia deixar de sublinhar que o BE votou contra ambos os pontos, caindo assim a segunda marcara!

A aprovação da referida moção para que o parlamento discuta um enquadramento legal para a prostituição e a  rejeição da recomendação que centra a intervenção da CML em torno da protecção das pessoas prostituídas, confirmam que afinal tínhamos e temos razão: Essa «plataforma» o que pretende, desde o inicio,  é arrastar a maior autarquia do país para a frente do apoio ao lobby da descriminalização do lenocínio.

No momento em que lisboa institucionalizasse o conceito de trabalho sexual e tudo o que ele encerra, estaria mais facilitado para o assalto ao parlamento.

A intenção desta gente não é a de proteger os direitos e a saúde das pessoas prostituídas; tão pouco a sua dignidade e direitos humanos. Insistimos, a intenção é só uma: pela mão, agora, da CML, abrir o caminho ao favorecimento da legalização do proxenetismo pela alteração do artigo 169º do código penal.

Por isso este debate que aqui realizamos hoje insere-se também no combate contra a ignorância.

É preciso explicar que o ordenamento jurídico português não criminaliza a conduta da pessoa que se prostitui, mas sim a conduta de quem explora a actividade da prostituição por parte de outra pessoa.

Só explicando isto se torna evidente o que querem na realidade legalizar e que interesses querem proteger. Não são os das pessoas prostituídas. São única e exclusivamente os interesses dos proxenetas. Os interesses do capital que encontra na prostituição lucros anuais que rondam os 186 mil milhões de euros. Lucros obtidos com a mais vil exploração e exercício de violência contra homens, mulheres e muitos milhares de crianças e jovens. Lucros obtidos por meios infames que envolvem o tráfico de pessoas e a  escravatura de cerca de 42 milhões de seres humanos em todo o mundo. Lucros obtidos com a exploração infame dos mais vulneráveis dos vulneráveis como está a acontecer com os refugiados que chegam a esta moderna europa “campeã” dos direitos humanos. Lucros para as redes de traficantes, para os chulos agora convertidos em legítimos empresários, mas também  para Estados – Estados proxeneta – que engordam os cofres com a colecta feita à conta da violência sobretudo contra as mulheres.

Confiamos que a Câmara Municipal de Lisboa há-de inverter este caminho. Mas é preciso fazer mais para que seja efectivamente garantida a inversao dos objectivos que norteam a dita «plataforma», desde logo continuando a largar o leque de apopio à nossa Petição convidando os eleitos nos órgãos autarquicos das freguesias de lisboa e dos órgãos autarquicos para que a ela se associarem.

O seu contrário teria  graves consequências politicas e sociais, porque não é aceitável que qualquer intervenção municipal acentue a desprotecção das pessoas prostituídas, incentive e legitime este sórdido negócio; e trate os “clientes prostituidores” como meros consumidores de serviços, fomentando e institucionalizando o papel condenável que têm em todo o sistema prostitucional.

Não é aceitável que qualquer intervenção municipal vá no sentido de dizer às mulheres que o seu corpo pode ser colocado à venda. Nenhuma mulher, muito menos as que são prostituídas, coloca para si, ou para os seus,  a prostituição como um projecto de vida. E não! Não é verdade que a prostituição seja uma opção. Antes é a ausência de qualquer outra opção que garanta a sobrevivência e um projecto de vida vivida em liberdade, segurança, dignidade e respeito pelos direitos económicos, sociais, políticos e culturais que a todas as mulheres é devido.

Não é aceitável que qualquer intervenção municipal fomente particularmente junto dos mais jovens um falso “glamour” associado à prostituição, incentivando valores e práticas assentes em relações desiguais, de poder de um sobre o outro, e de extrema violência como acontece na prostituição.

O MDM com 50 anos de intervenção – reconhecida  este ano pela própria CML com a atribuição da medalha de mérito da Cidade – não desiste, nem desistirá da luta contra todas as formas de violência sobre as mulheres, de que a prostituição é expressão extrema. Esta luta tem estado bem visível na acção deste movimento de norte a sul do país e assumido grande centralidade na Manifestação Nacional de Mulheres realizadas no âmbito do 8 de Março de 2017 e 2018.

Esta luta está inscrita no nosso ADN, no conjunto das nossas reivindicações pela  efectivação da igualdade das mulheres como um combate do nosso tempo! O Congresso do MDM que se realiza a 27 de Outubro no Forum Luísa Todi em Setúbal e a Manifestação Nacional de Mulheres convocada para 9 de Março de 2019 em Lisboa constituirão dois importantes momentos da vida do MDM para o aprofundamento da nossa intervenção em torno desta temática.

Porque como Brecht nos lembrou, esta luta que travamos exige a coragem de dizer a verdade sobre a prostituição e enfrentar um poderossímo “lobby” que se agita e afirma nos jornais, na academia, nas organizações ditas de defesa dos direitos das mulheres e dos direitos humanos, fazendo despudoradamente o caminho da regulamentação da prostituição de forma organizada e coordenada procurando alargar a sua teia de influência – dizem – em nome dos direitos humanos dos “trabalhadores do sexo”

Esta luta que travamos exige inteligência para reconhecer a verdade sobre a  prostituição.  A prostituição não é um acto individual de uma pessoa que aluga o seu corpo por dinheiro, é antes um sistema organizado para o lucro, que é intrinsecamente violento, discriminatório e profundamente desumano. Funciona como um negócio e cria um mercado no qual  proxenetas planeiam e actuam para assegurar e aumentar os seus mercados e onde os compradores de sexo têm um papel chave na dinamização desse mercado. Nele as pessoas prostituídas são o elo mais fraco. Nele não há  “liberdade”, “zonas seguras” ou “direitos”.

Esta luta que travamos exige habilidade  para transformar a verdade sobre a prostituição na nossa arma. A prostituição não é trabalho, é violência, e tem de ser reconhecida como tal. Tem de ser reconhecida como uma realidade indissociável das desigualdades sociais e das desigualdades entre mulheres e homens que persistem na sociedade e que são causadoras de intoleráveis formas de violência, opressão e agressão da dignidade e dos direitos das mulheres e das crianças.

Esta luta que travamos exige discernimento e engenho para difundir a verdade sobre a prostituição chegando sobretudo aos que não estão aqui hoje, os que aparentemente se encontram no lado oposto da barricada. Os que dizem “é a profissão mais velha do mundo” e outras coisas que tais.  É preciso esclarecer duvida a duvida, ganhar um a um para esta luta em defesa da dignidade que é devida a todos os seres humanos.

Asseguramos que vamos continuar a batermo-nos pelo cumprimento da Constituição da República  que garante a todas as pessoas o direito à dignidade, saúde, segurança social e igualdade. O tráfico de pessoas e o dito “trabalho sexual” não é compatível com tais direitos fundamentais nem com as convenções ratificadas pelo Estado Português, que o obrigam a contrariar a normalização da prostituição e a accionar todos os mecanismos para eliminar a exploração da prostituição.

Asseguramos que vamos continuar a batermo-nos por politicas comprometidas com o combate à prostituição nas suas causas, com a penalização do crime e com o apoio e protecção às vitimas.  Politicas comprometidas com a promoção da autonomia e emancipação das mulheres, desde logo no acesso ao trabalho com direitos e a salário igual. Politicas comprometidas com a criação do Plano de Combate à Exploração na Prostituição, que garanta, nomeadamente, o acesso imediato das pessoas prostituídas a apoios que lhes permitam a reinserção social, profissional e o acolhimento dos filhos, abrigo, protecção e assistência psicológica, médica, social e jurídica.

Asseguramos que vamos continuar a batermo-nos  pela rejeição da malfadada plataforma que nos trouxe aqui e pela adopção de uma “plataforma municipal de intervenção na área da prostituição e outras formas de exploração sexual, e combate ao tráfico de pessoas”

Asseguramos que vamos continuar a batermo-nos para que a CML promova e implemente políticas de rejeição à exploração na prostituição e ao tráfico de pessoas, empenhadas no apoio e protecção das suas vítimas, investindo em programas de saída, reinserção social, acesso à habitação, educação e formação profissional, saúde e protecção social.

Às mulheres asseguramos que contam e contarão com este movimento de mulheres que não se vende, que não se curva, que não abdica de erguer a sua voz e de cumprir o seu papel.

Por isso cá estamos e estaremos neste combate que é justo, é necessário e é urgente.

E não estamos sós. Ao nosso lado estão muitas outras organizações sociais, outras organizações de mulheres, muitas mulheres e homens que como nós assumem o compromisso de agir e lutar em defesa dos direitos das mulheres, da sua dignidade e direitos humanos.

Debate ” em defesa da dignidade das mulheres”
28 de junho de 2018
Dália Rodrigues
“O Ninho”

Há mais de cinco décadas, O Ninho iniciou uma intervenção inovadora com o objetivo de conhecer o meio prostitucional, os seus agentes e a realidade das mulheres prostituídas, estruturando uma metodologia de intervenção e criando serviços que se vão adequando às suas necessidades.

Conhecer o meio prostitucional, compreender as causas e consequências da prostituição e perceber as mudanças que se verificam neste meio, é indispensável para planear ações que visam a promoção das jovens e mulheres que são prostituídas.

O Ninho considera prostituição como um grave problema social, assim como aos fatores que lhe são inerentes: a exclusão social e a exploração, as desigualdades sociais e de género.

Consideramos que este problema social deve ser tratado como tal e não regulamentar esta forma de exploração que é um atentado à dignidade humana.

As sociedades evoluíram mas quando falamos em regulamentar a prostituição como de um trabalho se tratasse, consideramos que estamos a regredir em termos civilizacionais.

O próprio conceito de trabalho sofreu alterações ao longo do tempo.

Com a evolução das sociedades, os conceitos alteraram-se. O trabalho-tortura, maldição, deu lugar ao trabalho como fonte de realização pessoal e social, o trabalho como meio de dignificação da pessoa.”

Como poderemos considerar como se de um vulgar trabalho se tratasse, a prostituição?

No limite seria um “trabalho” de altíssimo risco para a integridade física e psíquica da ou do “trabalhador sexual”…

A cobro de vários estudos académicos pagos por redes internacionais que tem todo o interesse em que a prostituição (e em consequência todos as ilicitudes associadas) seja cientificamente comprovado um trabalho como outro qualquer, vejamos um manual elaborado por várias entidades, incluindo portuguesas, pomposamente denominado “Trabalho mais seguro”, que tem autênticas barbaridades, não só porque normalizar algo que não é, em contexto nenhum normal, mas também e sobretudo porque para quem conhece a realidade da prostituição, como O Ninho, que há 50 anos apoia estas mulheres, sabe que não corresponde á realidade.

Senão vejamos alguns dos exemplos deste verdadeiro manual de instruções:

Trabalha onde te sentes mais segura, na medida do possível.

-Está atenta ao comportamento do cliente. Mantém sempre um olho nele.

-Evita clientes que estão sob a influência de álcool ou outras drogas. Se não puderes evitá-los, mantém-te especialmente vigilante com eles.

Está alerta

– Tenta não usar álcool ou outras drogas, antes ou durante o trabalho, para que possas permanecer no controle da situação e estar mentalmente alerta.

Mantém a calma e a determinação

– Se o cliente for agressivo tenta não reagir da mesma maneira.

– Tenta falar com calma e não mostrar qualquer sinal de medo.

-Tenta mostrar ao cliente que não tens medo e sabes como te proteger. Por exemplo, diz que vais chamar o responsável da casa ou alguém que esteja por perto no caso de uma emergência.

– Se sentires que estás em perigo, mantém a calma e mostra determinação, convidando o cliente a sair. Fala com o proprietário ou o responsável do local ou aciona o alarme, caso tenhas um.

Dão conselhos, tais como:

Mantém sempre o telemóvel perto de ti e totalmente carregado.

– Tem sempre um plano de fuga.

-Não uses brincos grandes e colares durante o trabalho. Eles podem ser usados como “arma” contra ti.

ATENÇÃO! Se fores vítima de violência, não te laves.

Muitas vezes é necessário fazer um exame médico para recolher provas (em caso de violação, por exemplo).

Quem em boa consciência pode querer regulamentar isto? Quem em boa verdade considera isto como um trabalho vulgar, em que o próprio manual alerta para os inúmeros perigos da violência que lhe está inerente?

Passemos depois ás “INVERDADES”:

Na prostituição nunca a máxima ”o cliente tem sempre razão” se aplica em toda a sua plenitude. Sejamos claros, quem define as regras, nesta autêntica transação comercial, é o cliente, quem paga. Por isso dizer:

-Evita clientes que estão sob a influência de álcool ou outras drogas. Se não puderes evitá-los, mantém-te especialmente vigilante com eles.

– Tem cuidado. Um cliente com boa aparência não é por isso que é saudável.

– Faz sempre sexo seguro.

Terminando com esta autêntica pérola:

Se tiveres oportunidade, frequenta um curso de defesa pessoal.

Poder-se-ia considerar absurdo se não fosse dramático.

O argumento que a legalização retira o estigma é também falacioso. A legalização vai tornar as mulheres ainda mais vulneráveis e completamente nas mãos de mafias, transformados em empresários legítimos.

Por isso dizer:

Tu tens direitos no teu local de trabalho!

-Não aceites um trabalho quando as condições não são as mais adequadas para ti, se possível.

-Se não estás confortável no teu local de trabalho, tenta mudar de sítio ou tenta falar com o gerente/dono do apartamento para melhorar as condições de trabalho ou para trabalhares noutro local.

-Se tens um gerente/dono de apartamento, negoceia com ele as condições de trabalho e os serviços que vais oferecer antes de começares a trabalhar. Tenta negociar a forma de pagamento que preferes: por dia ou por semana.

 

É demonstrar um profundo desconhecimento da realidade da prostituição. O poder negocial da mulher prostituída é diminuto, quando não inexistente.

Também a questão da saúde, tema tão caro a quem defende a regulamentação da prostituição, está espelhado neste documento.

Passemos em primeiro lugar ao conceito de saúde, segundo a OMS: “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afeções e enfermidades”.

Neste manual é dito o seguinte:

Faz regularmente check-up médico.

-Consulta o teu médico sobre os métodos contracetivos.

– Evita trabalhar muito tempo seguido.

– Não te esqueças de arranjar tempo para descansar.

– É importante seres saudável, estares em boa forma e sentires-te bem contigo mesma.

O Ninho sabe, porque tem apoiado jovens e mulheres nestes últimos 50 anos, que os seus percursos marcados pela violência criaram traumas profundos a nível físico, psíquico e emocional, por vezes irreversíveis. O dia-a-dia destas mulheres é marcado pela sobrevivência, pelo viver e sobreviver no imediato. A saúde, o cuidar de si, não surge como primeira prioridade. São histórias de vida marcadas pelo abandono, pelo desamor, por uma baixíssima auto estima.

Por outro lado, a questão do bem-estar está estritamente ligada a uma sexualidade saudável.

Ora, “A prostituição a efetivação de práticas sexuais, hétero ou homossexuais, com diversos indivíduos e remuneradas, num sistema organizado onde existem 3 atores: pessoas prostituídas, proxenetas e clientes”.(Fontinha 2003).

A sexualidade, o ato sexual per si, ou a venda de favores sexuais no contexto da prostituição, assenta na premissa de que alguém vende o corpo porque há alguém que o vai comprar, e o retém como seu durante o momento do ato. É o oposto daquilo que segundo a OMS considera uma sexualidade saudável em toda a sua plenitude: “ uma energia que nos motiva a procurar amor, contacto, ternura e intimidade, que se integra no modo como nos sentimos, movemos, tocamos e somos tocados, é ser-se sensual e ao mesmo tempo sexual; ela influencia pensamentos, sentimentos, ações e interações e, por isso, influencia também a nossa saúde física e mental”.

Este manual termina com:

Não te esqueças: o trabalho sexual é trabalho.

Tens um conhecimento básico das questões legais, um talento para a organização e um dom para a persuasão.

Muitas dessas competências são transferíveis para outras áreas se quiseres mudar de trabalho mais tarde.

Esmiuçando estes parágrafos: o “trabalho sexual é trabalho” como?

Quando te colocas permanentemente em perigo de ser violentada, de teres que estar alerta a clientes perigosos?

Onde as palavras que predominam são:

Evita…

Tenta…

Mantem-te alerta…

Aciona o alarme, caso o tenhas…

Tens um conhecimento básico das questões legais?

Como? Se a maior parte das mulheres em situação de prostituição não conhecem os direitos básicos inerentes a qualquer cidadão?

São excluídas, da escola, da família, do trabalho, dos direitos, dos afetos…da dignidade. Necessitam de ser acolhidas, inseridas, compreendidas nas suas dificuldades, acompanhadas no seu percurso. Necessitam de saber que têm um lugar, uma alternativa, uma possibilidade de construir um novo trajeto.

-Por isso O Ninho apela a um compromisso político-social e cultural, uma frente comum de luta contra o sistema prostitucional, combatendo as suas causas e consequências.

Para o Ninho é Urgente:

  • Trabalhar para fazer emergir novas mentalidades;
  • Educar para o respeito pela igualdade dos sexos, o respeito pelo outro e por si próprio, o respeito pelo corpo;
  • Consciencializar os jovens para a profunda violência infligida às mulheres prostituídas e para a cruel realidade da prostituição, que constitui uma grave violação dos direitos dos seres humanos; que o corpo humano é inalienável e que não há prostituídas felizes.
  • Prevenir através de campanhas de sensibilização;
  • Implementar uma política de reinserção que associe atendimento, acolhimento e apoio, em parceria com poderes públicos e associações que permitam uma ação coerente;
  • Penalizar severamente o proxenetismo organizado;
  • Clarificar que traficantes, proxenetas e clientes todos exploram a mulher em graus diferentes;

– Comprometer os meios de comunicação social na adoção de uma ética de informação;

O Ninho defende que:

– Não se combate a prostituição com medidas coercivas, mas com uma política social global, uma transformação das estruturas e uma mudança de mentalidades;

– Legalizar a prostituição, é legalizar máfias e organizações criminosas, que traficam crianças, mulheres e jovens tornando-os escravos dos tempos modernos;

– É institucionalizar a violência pelo Estado, tornando-o proxeneta e pactuando com criminosos. A prostituição é uma empresa comercial gigantesca que despreza a dignidade humana em nome da rentabilidade financeira;

– Que fazer a distinção entre uma prostituição “forçada” e uma prostituição “livre”, isto é, uma má e uma boa prostituição, tem apenas por objetivo banalizar e legalizar a prostituição, dar-lhe uma “fachada“ de dignidade e como consequência legitimar o proxenetismo.

Gostaria de terminar com algumas palavras de Sónia Sanchez, uma sobrevivente da prostituição e do tráfico e que escreveu um livro que se intitula: “Nenhuma mulher nasce para ser puta”.

Numa entrevista sobre este livro ela disse as seguintes palavras:

“Uma mulher que realiza um trabalho sexual não é uma mulher, mas uma boca, uma vagina e um ânus. Esse trabalho reduz-nos a isso, não somos pessoas, as putas não tem um corpo, porque um corpo é um todo.

A puta não tem pulmões, não tem olhos, não tem sentimentos… só tem boca, vagina e ânus.

Definamos juntos o que é trabalho sexual e o que uma puta produz.” Chamemos as coisas pelo nome, choque a quem chocar”.

Muito Obrigada.

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