Maria Clementina Vilas Boas Carneiro de Moura nasceu em Lisboa a 25 de setembro de 1898 e faleceu em Lisboa a 18 de julho de 1992.
Pintora e Professora.

As condições de vida actuais, com as limitações impostas pela dura luta quotidiana, não permitem às mulheres – que têm de substituir os homens no amanho da terra  – semear, colher, fiar e tecer o linho”[1]

Maria Clementina Vilas Boas Carneiro de Moura nasceu em Lisboa a 25 de setembro de 1898 e faleceu em Lisboa a 18 de julho de 1992. Era filha de João Lopes Carneiro de Moura e de Elvira Vilas Boas Carneiro de Moura. Foi pintora e professora. Pertenceu à segunda geração de artistas modernistas portugueses. Concluiu o curso de Pintura da Escola de Belas Artes de Lisboa em 1920, onde foi aluna de Columbano Bordalo Pinheiro e colega de Sarah Afonso. Nesse mesmo ano visitou Paris, onde conheceu Abel Manta com quem viria a casar-se em 1927 e do qual teria um único filho, João Abel Manta, o grande cartoonista de Abril.

Dedicou grande parte da sua vida ao ensino, trabalhando ao longo dos anos nas escolas de ensino secundário Afonso Domingues, Fonseca Benevides, Machado de Castro e Josefa de Óbidos. Em 1940 trabalhou na decoração do Pavilhão do Oriente na Exposição do Mundo Português. Em 1947 viajou por todo o País, investigando as artes decorativas, nomeadamente a produção de colchas, bordados e rendas tradicionais. Entre as suas múltiplas publicações nesta área destaca-se: Bordados Tradicionais de Portugal publicado pela Companhia de Linhas Coats & Clark, Ldª do Porto.

Depois de ter acompanhado uma serie de Exposições de Colchas de Castelo Branco em Portugal e no estrangeiro entre os anos de 1939 e 1966, Maria Clementina Carneiro de Moura, professora de artes e estudiosa como nenhuma outra das artes dos bordados, não é de estranhar que a organização da Mocidade Portuguesa Feminina (MPF) se interessasse pelo seu trabalho, num tempo em que os lavores femininos eram o modelo para as mulheres e quase a única oferta de formação profissional de raparigas, através dos Centros de Formação da MPF que funcionaram de 1939 a 1945. Assim se justifica a publicação de As Colchas de Castelo Branco e o “bordado” editada pela MPF onde  Maria Clementina percorre experiências e tradições, exalta as matérias-primas e os materiais usados nos bordados e nas colchas. Escreve que, em regra, as colchas eram bordadas a fios de seda e de linho, mas as mais ricas eram bordadas sobre cetim; tinham uma diversidade de coloridos e tons com motivos de influência marcadamente oriental que atravessaram civilizações humanas desde a pré-história aos anos 60 do século passado. Curiosamente, ao longo do texto de 69 páginas, escritas sob a égide da MPF, a organização que o fascismo vocacionava para a educação das raparigas preparando-as para serem as fadas do lar, objectivos e concepções bem conhecidos da pintora, mas dos quais Clementina se distancia de forma hábil e inteligente. Chega a escrever que ambos os sexos poderiam aprender bordados nas escolas técnicas, o que significava uma grande audácia, quando à época a coeducação era proibida e a lei impunha a separação dos sexos em todos os graus de ensino, exceptuando o ensino superior. É interessante notar como entrelaça a sua visão sobre a condição feminina, bordando e pincelando os textos com a denúncia da dura vida das mulheres, a par de uma inegável dedicação e sensibilidade das mulheres portuguesas para um trabalho tão delicado no qual mostram engenho e capacidade. Exprime-o desta forma, “As condições de vida actuais, com as limitações impostas pela dura luta quotidiana, não permitem às mulheres – que têm de substituir os homens no amanho da terra  – semear, colher, fiar e tecer o linho”[1]. E noutra publicação, enaltece a qualidade das bordadoras “diplomadas” ou das artesãs que executam os seus delicados trabalhos “nos pequenos intervalos das pesadas tarefas nos campos e no lar”, e neles se aplicam com “aquela ternura que é costume dedicar às obras que se fazem para servir a várias gerações”.[2] Noutro passo, retoma a valorização das mulheres bordadoras. Ao estabelecer o paralelismo entre as Colchas de Castelo Branco e as Colchas Alentejanas, que deixaram de se fazer, mas de enorme carácter e inconfundível estilo, as colchas de noivado ou seja os bordados a frouxo da região de Castelo Branco, constituem uma das mais válidas e enternecedoras manifestações do engenho e da sensibilidade da mulher portuguesa[3]. Foi autoridade reconhecida no estudo e ensino dos têxteis portugueses, com destaque para o bordado, que na fase final da sua vida aplicou em colchas de retalhos (patchworks) realizadas com minúcia e perfeição[4].

O seu interesse pelos crafts insere-se, aliás, numa renovação destas técnicas tradicionais que atravessou o Ocidente durante todo o século XX, e que foi também apanágio de outras artistas como Sonia Delaunay e Sophie Taeuber-Arp, para citar apenas dois nomes dos mais famosos.

Viveu em tempos difíceis, quando às mulheres pintoras muito era vedado e muitas, se não invisíveis, pelo menos na penumbra ficavam. Foi ao ensino que dedicou a sua vida, tendo sido aposentada como professora do ensino técnico profissional, em 22 de dezembro de 1959. Já como pintora d’arte, aos 22 anos, fez o curso da Escola Normal para o Ensino de Desenho, com a classificação final de 18 valores. O seu mérito artístico ficou ligado ao conhecimento das artes das colchas, rendas e bordados, não só portugueses, o que a torna uma incontornável figura ligada aos têxteis, a quem mesmo entidades públicas ao tempo do Estado Novo a ela recorriam para dar pareceres face a propostas de aquisições ou trabalhos para exposições. Exemplo desse reconhecimento é a atribuição do grau de Oficial da Ordem da Instrução Pública em 9 de janeiro de 1960.

Como pintora, participou, entre outras, na Exposição Anual da Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA) em 1920 onde recebe uma Menção Honrosa em Pintura e depois nas Exposições Gerais de Artes Plásticas, na SNBA em 1946, 1948, 1953, 1955 e 1956. Estas exposições reuniam pintores ditos vanguardistas, onde dominava a tendência neo-realista condenada pelo regime salazarista. Na Exposição de 1956, ao lado de Clementina Carneiro de Moura, figuravam mais de duzentos e oitenta artistas, entre os quais estava seu filho João Abel Manta, Rogério Ribeiro, José Dias Coelho, Keil do Amaral, Júlio Pomar e um número reduzido de mulheres. Sabe-se que participaram algumas pintoras como Leonor Praça, Maria Keil, Lourdes Castro ou Alice Jorge. Era um conjunto de artistas que a União Nacional caracterizava como a frente popular da arte ou a unidade do pessimismo e da desordem[5].

Participou também na I Exposição e II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, em 1957 e 1961 (catálogos nº165 e 166). Está representada no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa, no Museu Municipal de Arte Moderna Abel Manta em Gouveia e no Museu Grão Vasco em Viseu.

A crítica de arte Luísa Soares de Oliveira, em artigo titulado Os rostos das memórias[6], coloca a obra pictórica de Clementina lado a lado com a de outras mulheres pintoras da primeira metade do século XX, como Sarah Affonso ou Milly Possoz, com quem partilha a mesma abertura à modernidade artística.

A par da prática constante da pintura, Clementina exerceu uma atividade política constante, tal como toda a família de resto. Manteve uma postura antifascista,  defensora da democracia e dos ideais da Revolução de Abril.

O Centro Cultural de Cascais apresentou, de 14 de Setembro a 24 de Novembro de 2013 a exposição «Retrato(s) de Família», que acolheu obras de Clementina Carneiro de Moura Manta,  de Abel Manta seu marido, do seu filho João Abel Manta e da sua neta Isabel Manta. Composta por mais de uma centena de obras dos quatro artistas, foi uma mostra aparentemente eclética no seu conjunto, evidenciando uma contínua dedicação ao retrato e ao auto-retrato, aos padrões e cores e à paisagem que marcou o território vivencial de cada um dos artistas. A sua singularidade advém da amostragem em simultâneo dos trabalhos de três gerações de Mantas. Uma família de artistas plásticos esteve desta maneira  reunida.

Com um notável percurso antifascista, é sobre o seu empenho na causa da emancipação das mulheres que aqui a relevamos. Clementina Carneiro de Moura pertenceu à Associação Feminina Portuguesa para a Paz (AFPP) nos anos 40/50 e ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (CNMP), a cuja direcção pertencia aquando do seu encerramento em 1947.

Foi, pois, uma mulher com convicção nas coisas das mulheres, onde sempre demonstrou vontade e activismo. Na importantíssima Exposição de livros de mulheres célebres, organizada pelo CNMP em 1947, na SNBA, Clementina Carneiro de Moura realizou, com mais duas colegas, os retratos de mais de cem mulheres famosas que preencheram as paredes da SNBA. Comprometida politicamente, o seu nome é referido em múltiplas iniciativas contra a ditadura, a censura e a repressão. Foi a primeira mulher a desempenhar um cargo de direcção na SNBA, a cuja direcção pertenceu de 1950 a 1954.

Após o 25 de Abril aderiu ao MDM, tendo participado regularmente na vida do Movimento e ajudado na organização de exposições de trabalhos seus e de outras artistas suas contemporâneas, na sede do Movimento. A sua única exposição individual de pintura, fê-la exactamente de 23 a 30 de Novembro de 1989 no Espaço Maria Lamas, espaço criado na sede do MDM na Avenida Duque de Loulé, 111, 4.º em Lisboa. Nela estiveram patentes 17 obras – óleos e gravuras, seleccionadas com a ajuda de seu filho e neta. Em 1987, expôs alguns trabalhos de patchwork neste mesmo Espaço. Em 1990, na reposição da Exposição do CNMP na SNBA, por iniciativa do MDM, estiveram alguns dos retratos de mulheres célebres que, entretanto, foram recuperados, como parte da Exposição de 1947. Foi eleita para o Conselho Nacional do MDM no I Congresso em 1980, sendo-lhe atribuída posteriormente, a Distinção de Honra do MDM, distinção que durante 20 anos foi igualmente  atribuída a várias mulheres que se destacaram na cena política, social ou cultural, em prol da dignificação da mulher. Em 23 de novembro de 1989, já bastante doente, recebeu em sua casa das mãos de Maria Alda Nogueira e Laura Lopes a medalha acompanhada da seguinte missiva “Toda a sua acção na luta pela libertação da mulher faz de Clementina Carneiro de Moura uma personalidade muito cara ao MDM e a todas as mulheres democratas”, tendo comovidamente agradecido com estas palavras, “Não mereço nada disto. Fazerem-me uma festa destas se o que fiz foi espontâneo” [7]

O Jornal de Letras de 28 de julho de 1992 noticiava assim a sua morte, “Com 93 anos, morreu a última artista que viveu uma época rara e rica da nossa arte contemporânea (…) distinguiu-se em vários domínios mas procurou sempre não dar nas vistas”. Era uma mulher de carácter e grande determinação. O seu marido, Abel Manta, dizia aos amigos que estava casado com a Pasionaria.

Na sua bibliografia constam textos como, Tapetes de Arraiolos – Colchas e Bordados – oito séculos de arte portuguesa, e ainda os textos inseridos em As Artes Decorativas, 2ºVolume, Edições Excelsior, S/d , Rendas de Peniche – Arte Portuguesa e Colchas de Castelo Branco – Arte Portuguesa.

O seu nome figura na Toponímia da Charneca da Caparica, concelho de Almada, e em Odivelas, ficando assim pertença da cartografia cultural e do território nacional.

Enviuvou com cerca de 82 anos. E, aos 89 anos, continuava a pintar, com a mão esquerda por motivos de saúde.

O trabalho pioneiro de Clementina Carneiro de Moura está ligado aos trabalhos têxteis mas a sua produção continua, em grande parte, inédita. A sua neta, Isabel Manta, diz que a carreira artística de sua avó “decorreu de uma forma porventura “insólita”, sem obedecer a modas ou correntes dominantes, movendo-se com certa liberdade em relação ao percurso da pintura do Século XX. (…) Enveredou por caminhos diversos, que avançam ou recuam em função da sua vida familiar e profissional e, até, do contexto político do País onde a pintora sempre viveu”[8].

Talvez seja mesmo de anotar que, nos 40 anos de Abril, o nosso tributo a Clementina Carneiro de Moura, como uma Mulher de Abril, vem colmatar o silenciamento que percorre as páginas dos vários Dicionários de Figuras Femininas Portuguesas, travando algum esquecimento que não se deverá a uma falta de interesse ou à suposta falta de qualidade como bem lembra Helena Vasconcelos[9]e também a sua neta Isabel Manta.

A evocação do trajecto de Clementina Carneiro de Moura dentro da actividade do MDM com a cedência em vida de um quadro inédito ao MDM é prova bastante do seu percurso numa estreita simpatia e activismo pela causa dos direitos das mulheres. Restará doravante entrosar a dimensão política desta grande mulher com a sua obra plástica que, com propriedade, Luísa Soares de Oliveira sugere que “carece ainda da necessária exposição pública” completando a análise que a sua neta lhe dedicou, inventariando a sua produção artística, na dissertação de Mestrado em História de Arte, apresentada na Universidade Lusíada, no ano de 1999.

No momento em que as diferentes formas de expressão dos têxteis portugueses, incluindo os mais tradicionais, merecem uma atenção muito interessante por parte de jovens artistas, traduzida na edição de uma Bienal de Arte Têxtil Contemporânea de Guimarães – a Contextile – a melhor homenagem que podemos prestar a esta mulher de Abril, que desafiou e desfiou os fios da nossa memória, fios que foram tecendo a sua vida pessoal e familiar mas também a vida das mulheres em Portugal, é retomar a sua obra e dar sentido actual ao seu percurso. O curador da 2.ª edição da Contextile, Joaquim Pinheiro, escreveu que “o têxtil está fundamentalmente associado à vida das pessoas, seja o vestuário, para cobrir, ou o têxtil para o lar, para nos proteger[10]”. Reconfigurando o sentido das suas palavras com a vida cheia de Clementina Carneiro de Moura e com a actualidade da vida das operárias da industria têxtil, 40 anos depois de Abril, diremos que na senda memorial desta pioneira da arte dos bordados e rendas tradicionais se recoloca na ordem do dia a potencialidade do têxtil, do artesanato à indústria, como garantia de trabalho para milhares de mulheres, porquanto a tessitura da sua passagem pelas organizações de mulheres, desde a Associação Feminina Portuguesa para a Paz ao Movimento Democrático de Mulheres, deixou um rasto de uma inequívoca convergência entre a (o) artista que concebe e as mãos das operárias que executam, mesmo que prolongadas hoje pelas máquinas. Mãos que continuam a ser maioritariamente de mulheres.

 

[1] As Colchas de Castelo Branco e o “Bordado”, MPF, Lisboa, 1966

[2] Bordados Tradicionais de Portugal Companhia de Linha Coats & Clark, Lda. Porto S/D

[3] As Colchas de Castelo Branco e o “Bordado”, MPF, Lisboa, 1966.

[4]  Ibidem.

[5] História da arte, vol.10, p. 306-307, Publicações Alfa, 1989

[6] www. Fundacaodomluis.com  (consultado em  Agosto de 2014)

[7] Grilo, Conceição, in A Capital, 29 de Novembro de 1989.

[8] Manta, Isabel Ribeiro, A obra de Clementina Carneiro de Moura, dissertação de mestrado, texto policopiado, Universidade Lusíada, 1999. Obra em 5 volumes, sendo 4 os anexos. Destes, o volume I apresenta a cronologia, fotografia e documentos sobre a vida da artista; o II volume reúne as obras de pintura e desenho, o III volume a obra de bordados e rendas e o IV reúne a obra de patchwork .

[9] Vasconcelos, Helena, Humilhação e Glória, Quetzal, Lisboa, 2012, pp. 220-221

[10] Samuel Silva in Ípsilon, 22 de Agosto de 2014, p. 20-21

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